domingo, 31 de agosto de 2014

Destinos




       Amanheceu. Às cinco e meia da manhã começam (como se fosse algo combinado) a tocar numa perfeita sincronia, todos os despertadores da vizinhança. Logo que levanto, abro a janela do meu quarto para sentir no rosto os primeiros raios do sol e fico a observar o movimento ainda pequeno da rua quase que vazia, por pelo menos uns quinze minutos. É incrível a repetição dos fatos, mas esse é um fenômeno difícil de ser observado por todos, porque a mecanização tornou-se um importante elemento, um marco, um divisor de águas na era contemporânea, transformando as coisas em algo que as gramáticas dão o nome de rotina.

  Observo que sempre o primeiro a sair é o rapaz da casa de número dezessete. Ele abre o portão, põe a sua moto na calçada, volta, fecha o portão e vai mais uma vez ao encontro de seu destino diário. Pouco depois, sai o homem de bigode que mora na casa azul (falo assim porque realmente é a única casa dessa cor em toda a rua), sempre abotoando os botões da sua farda de motorista de ônibus. Anda tão apressado, que dá a impressão de estar sempre atrasado. Em seguida, o operário da rede de esgotos abre a porta de sua casa, sai na calçada, entra novamente, volta com uma xícara de café, acende um cigarro e permanece ali por uns dois minutos. Depois tranca a porta, vira-se e segue vagarosamente o seu caminho, como se carregasse um fardo sobre os ombros.

Como eu disse, isso acontece diariamente e ,essas pessoas, embora saiam em horários distintos pela manhã, chegam em suas casas à noite, sempre ao mesmo tempo. Outro fato que me deixa curioso é como essas três pessoas, embora sejam vizinhas há anos, não se falam, não se conhecem e tampouco têm o mínimo vínculo de amizade. Só se veem acidentalmente nos finais de semana ou na volta do trabalho. Observo tudo isso da minha janela. As coisas da vida são realmente tão curiosas, a ponto de se tornarem engraçadas, porque existem casos de verdadeiras amizades entre pessoas que moram muito distantes umas das outras e aqueles três vizinhos mal se olham. Todos nós sabemos que o destino é irônico e gosta de fazer surpresas, principalmente se forem ingratas.

Estava eu na janela. Era início de noite e as coisas aconteciam como nos dias anteriores, mas percebi algo diferente: os três homens ainda não haviam chegado. Finalmente, algo de novo aconteceu, após tantos anos repetidos. Senti-me feliz com a tal mudança de rotina, embora insignificante, tanto que resolvi abrir uma cerveja para comemorar.

Liguei a televisão, pois já havia começado o telejornal. Foi aí que descobri como a vida une destinos e como esses foram colocados, propositadamente, numa mesma história, só que da forma mais trágica que se possa imaginar: “Boa noite. Um motociclista em alta velocidade atropelou um operário da rede de esgotos ao tentar desviar de um buraco, saiu rolando pela pista e foi esmagado por um ônibus no cruzamento das avenidas...”



domingo, 10 de agosto de 2014

Homenagem ao meu pai, Raimundo Barboza Pinheiro





Olá pai, bom dia! Que bom estar aqui, para te felicitar por essa data que é comemorada apenas uma vez por ano, embora na minha concepção, o dia dos pais seja todo dia que se segue. As pessoas é que o veem como mero marketing, ao invés de instrumento de reflexões sobre os aspectos da vida. Esse é um dia para passeios, conversas, confraternizações, pois, afinal de contas, ter um pai é motivo para sorrir e agradecer aos céus.

Pai, você sempre foi presente na minha vida, não posso me queixar do contrário. Lembro-me com detalhes dos presentes, carinhos e momentos de prazer que vivenciei ao seu lado. Também não me esqueço dos “corretivos” que me deixavam com raiva, mas hoje compreendo que tudo o que você fez, foi pensando no meu bem. Você queria que eu aprendesse com os meus erros e me tornasse um homem, uma pessoa de caráter, que amasse ao próximo e buscasse o caminho do bem, assim como você. Obrigado por isso. Acho que você conseguiu esse objetivo.

Depois da separação entre você e mamãe, fiquei contigo, afinal, como filho mais velho, era seu companheiro de todas as horas. Lembra da nossa última viagem juntos? Pois eu me recordo de tudo com detalhes: estranhei o frio, a simplicidade que me causou desconforto e os mosquitos. Mas sentimentos existem também para serem modificados e a hospitalidade, juntamente com o carinho daquelas pessoas, fez com que elas passassem a ser, num curto espaço de tempo, amigas, ao invés de estranhas. Foi um mês de férias tão maravilhoso que eu nem queria mais voltar para a nossa casa na cidade. 

Depois disso, as coisas entre nós ficaram diferentes. Eu cresci e os meus planos mudaram de rumo. Mas é isso aí pai. Tudo caminha para um mesmo curso e o que temos a fazer? Aceitar com naturalidade, nem que para isso tenhamos que suportar os piores sofrimentos da alma.

A vida nos deixa marcas e as que trago no coração são muitas, principalmente aquelas que ficam atravessadas na alma. O que quero dizer pai, é que deixei para depois um carinho que queria te fazer, um abraço que queria te dar, palavras que eu tinha para falar e como eram belas... 

Tantas coisas que ainda teríamos de descobrir sobre o outro. Inúmeras atitudes que eu não sei, se por medo ou vergonha, deixei pra lá. Mas hoje estou aqui te homenageando e dizendo o que não tive coragem há anos atrás. Espero que não seja tarde demais, afinal, ainda estou vivo e penso em você todos os dias.

Sei que ando ocupado ultimamente, por isso venho pouco aqui e...

- Dezenove horas! Acabou o horário de visitas!

- É pai, tenho que ir. O cemitério está prestes a fechar. Até o ano que vem. Prometo que virei mais cedo e trarei flores. Descanse em paz.

sábado, 10 de maio de 2014

Mãe.


Escolhida por Deus para ser o elo entre nós e a vida, é a forma mais perfeita que uma mulher pode ter. Tem a beleza e singeleza de uma flor, além da força para enfrentar o mundo. Uma palavra de apenas três letras, ímpar expressão do amor em forma de gente. É tema de poemas e canções.

Encanta as entranhas dos esplendorosos jardins com suas pétalas-perfume, numa essência única. Reverencia a vida em cada amanhecer e é reverenciada pelo sol. Emana o perfume do amor, reflete nos corações a grandiosidade do mar. Alma que transcende os infinitos limites do ser.

É mãe, mas também esposa e filha, companheira, avó e amiga sempre recitada e respeitada em cada coração, em cada alma e memória de cada filho feliz por sua presença, eternos aprendizes de suas lições que são por demais importantes.

Doce mulher, de pétalas macias, forte, de rijos espinhos, que cuida e defende com garra seus amados filhos, que, por mais que cresçam, nunca deixam de ser crianças. Mulher singular na arte de fazer jus ao seu nome, que é doce, que é forte, porque és simplesmente...


Mãe.

sábado, 12 de abril de 2014

Feliz Aniversario!



“Eu não tenho data pra comemorar”. Assim disse o poeta numa de suas marcantes canções. Realmente, ele tem razão. Como se comemora uma data sem ter grandes perspectivas? Vejo isso nos olhos das pessoas ao meu redor. Tristeza, a falta de esperança e arrependimento por acreditarem piamente nas pessoas erradas.

 Falando em comemoração, Fortaleza amanheceu um pouco mais velha, afinal, completou 288 anos de existência. Os mais bairristas dizem que são anos muito bem vividos, de mãos dadas com o futuro, entre outros milhões de elogios. Mas sabemos que a realidade é outra. Escolas depredadas, ruas esburacadas, as intermináveis obras inacabáveis, trânsito caótico, violência, nem se fala (agora somos a sétima cidade mais violenta do mundo)! Que luxo! Não posso me esquecer de citar as pessoas mal educadas, que jogam o lixo nas ruas nos dias em que não têm coleta. Pelo menos nisso dou razão à Prefeitura.

De uns tempos pra cá passei a procurar qualidades na cidade onde nasci, mas ainda não tenho grandes coisas a dizer. Entendo que esse é um fenômeno peculiar das grandes metrópoles. É o “preço do progresso”, mas, ao contrário do que diz o lema da Bandeira Nacional, é desordenado.

Existem hoje duas Fortalezas. A dos turistas, da rede hoteleira (que também não é lá grande coisa), das praias lotadas, das ruas asfaltadas e minimamente arborizadas, dos shoppings, das mansões e aquela outra tão conhecida pela maioria das pessoas, com seus buracos, favelas, turismo sexual, lixo, falta de cultura e violência generalizada, que em algumas míseras datas é homenageada com festas a céu aberto para adoçar a língua do povo. “Nóis é pobre mais se diverte”.

Agora estamos numa época relativamente próxima da Copa do Mundo e das eleições para Presidente. Hoje mesmo assisti a diversas propagandas (enganosas, diga-se de passagem) que mostravam pessoas felizes nas filas quilométricas de um terminal de ônibus, crianças que brincavam numa praça revitalizada, um professor sorridente e satisfeito, postos de saúde com atendimento eficiente, entre outras perfeições que fazem parte dos devaneios daqueles mais crédulos.

Num telejornal ao meio-dia, um representante municipal disse que a Prefeitura trabalha incansável para cumprir as metas e as promessas feitas em campanha. Mas, trabalhoso mesmo, é viver a eterna espera no meio do caos. Contudo, existe o lado bom da coisa. Reconheçamos que Fortaleza agora é uma cidade internacional; afinal, tem a Ponte dos Ingleses, o Jardim Japonês e, sobretudo, no período chuvoso, as Ruas de Veneza. Feliz Aniversário.



Daniel Silvio


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Vida e Canções


“Entra ano e sai ano; sempre os mesmos planos”. É o que diz a canção de uma famosa banda de Rock. Analisando bem essa frase, vê-se que a arte, neste caso a música, traduz fidedignamente diversos aspectos do atual contexto sociopolítico do Brasil. 

Num telejornal desses que passam ao meio-dia foi mostrado mais um (entre milhões já ocorridos) caso de inundação, numa cidade por enquanto sem nome, pelo fato de o mesmo não ter sido por mim ouvido; afinal, é só mais uma dentro das estatísticas.

O que se pode perceber é que as pessoas fazem questão de ser apolíticas, de continuar a sorrir frente às agruras da vida (popularmente falando, mazelas), sem se importar com o futuro, comportando-se como animais, que aproveitam sempre o momento presente. O País estático aguarda a definição nas urnas, do que serão os próximos quatro anos. Discursos eletrizantes são feitos entre aplausos desolados, de quem nunca se cansa de esperar por um milagre, já que do céu só caem chuvas, raios, meteoros, satélites e aviões. As mesmas caras-de-pau, renovadas por foto shop, estampam cartazes e bandeiras, dando a impressão de que as velhas promessas serão, de fato, cumpridas. 

Infelizmente, a maioria se esquece de que nos últimos três anos faltaram remédios nos postos de saúde, leitos nos hospitais, policiamento suficiente nas ruas, vagas nas escolas e creches, saneamento básico e, sobretudo, moradia digna àqueles cidadãos supracitados, que brigam com São José ou São Pedro (aí quem decide é a igreja), para que seus barracos e filhos não sejam carregados pelas enxurradas durante a noite, sentindo-se egoístas por pedir menos água para os pobres sertanejos, que tiram o seu sustento daquilo que plantam e colhem. Já os sertanejos, além da comiseração divina, também aguardam que a água, tão prometida há alguns anos, chegue por meio de açudes e redes de abastecimento.

Enquanto supostos adversários seguem a política do “entre tapas e beijos”, o povo caminha “contra o vento; sem lenço e sem documento”, o tempo segue “devagar; devagarinho” e tudo continua sempre igual. “Entra ano e sai ano; sempre os mesmos planos”. E assim, no meio dessa eterna dicotomia, vida e arte caminham “de braços e abraços, num romance astral”.

O que seria do mundo se não existissem as canções... 


Daniel Silvio

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pequeno ensaio sobre a educação brasileira



A que ponto chegou a nossa educação. Em busca de ascensão no cenário socioeconômico mundial, o governo brasileiro prioriza o aumento dos índices nas estatísticas. Sabemos todos que os números não mentem, mas, infelizmente, as pessoas sim. Números são apenas números. A mídia divulga os resultados como uma grande conquista, isto é, não faz nada além de dizer o que os governantes e cidadãos gostam de ouvir após mais um estressante dia de trabalho. "Graças a Deus, pelo menos uma boa notícia". O fato de alunos não serem reprovados em nossas escolas denota num crescimento imaginário e como resultante, saídos das escolas públicas, profissionais extremamente capacitados para limpar vidros de carros, recolher lixo, além dos mais destemidos e empreendedores que, com enorme visão para negócios, tornam-se traficantes de drogas.

            Mas não podemos abordar esse tema de forma generalizada. Ressalto aqui, que faço referências à maioria e que também sou conhecedor do lado positivo dessa história. Infelizmente, quando saem os números do "crescimento na educação", não é levado em conta apenas o que funcionou de verdade, quantos alunos aprenderam de fato. A imprensa mostra e o povo sorri, mesmo depois de um insólito aumento do salário mínimo, que, segundo economistas do governo é oneroso. Segundo uma pesquisa, para cada real inserido no salário são 135 milhões a menos nos cofres públicos. Só uma curiosidade: Por que a alta cúpula pesquisa sobre quanto custa ao povo o aumento de míseros 62% nos próprios salários? Perdão. Isso é outra história, para outro artigo.

Viva o carnaval! Viva o coelhinho da Páscoa! Viva Tiradentes! Viva o Papai Noel! Viva o sistema da não reprovação!  Do jeito que as coisas estão, num futuro bem próximo, os estudantes não saberão mais nem resolver um simples problema que a vida lhes oferece diariamente: escrever seu próprio nome. 

Que venha a Copa do Mundo!

Daniel Silvio

sexta-feira, 7 de março de 2014

Para todas as mulheres



Hoje é um dia para ser comemorado com a maior das alegrias. Não, não é pelo sábado, e sim, por uma data mais que importante, onde as flores se abrem com um olor especial, embora essa homenagem deva ser feita todos os dias. 8 de março não lembra nada para você? Claro que sim! Hoje é o Dia Internacional da Mulher.

Da mulher guerreira que enfrenta bravamente as dificuldades do dia-a-dia e consegue ao mesmo tempo ser delicada e companheira. Mulher que amamenta, acalenta e tem garras de leoa ao defender seus filhos. Que chora não pelas dores físicas, mas pela alegria da superação.

A melhor amiga, mãe, parceira, que pela força do afeto dobra os homens mais duros. Estamos nós, indivíduos “fortes” do sexo masculino, rendidos aos seus cuidados , mas, ainda assim, insistimos em ficar no posto de comando, apenas por acreditarmos na tradicional máxima que diz “Quem manda é o homem”. Ideologia barata, filosofia de fundo de quintal, no máximo, de bar.

Após um dia de trabalho duro precisamos de carinhos, carícias, comidinha quente e cama aconchegante para que possamos dormir tranquilamente e enfrentar tudo de novo ao acordar. Consolo e serenidade nos momentos de dificuldade que recebemos de graça...

Só a mulher nos proporciona isso e ainda nos sentimos o máximo. Pobres de nós. Com tanto vigor, coragem e astúcia, ainda somos fracos, inseguros e menos inteligentes, sem contar que não fomos escolhidos pelo Criador para cumprir a sublime missão de dar a luz. Será que somos de fato o lado mais forte sabendo que não temos capacidade de viver ao mesmo tempo vários papéis?

Imagino como é difícil ser mãe, esposa, funcionária, dona-de-casa, babá, cozinheira, lavadeira, engomadeira e a base forte de uma família. Isso é o que chamo de solidez, força espiritual extrema, que só a mulher possui.

Aos machões de plantão, esse não é um discurso feminista, apenas uma pequena homenagem às Roselenas, Helenas, Rosas, Joselinas, Danielles, Renatas, Rutes, Socorros, Zeunálias, Cláudias, Aurineides, Andréas, Isabelas, Silvias, Lúcias, Fernandas, Vivianes, Geises, Anas, Sabrinas, Carolinas, Rosanes, Kamillas, Moniques,Pompeias, Goretes, Naras, Tarcisias, Jaciras,Déboas, Suzys, Mirelas, Cristianes,Geuzas, Huianas, Solanges, Paulas, Taianes, Níveas, Marluces,Virnas, Karlas e Hellens, enfim, entre outros milhões de nomes, que à frente da grandeza do papel que têm no mundo são apenas nomes, porém, dignos da mais expressiva e sincera reverência. Mulher, parabéns por esse dia, que deve ser comemorado todos os dias...


Daniel Silvio

quarta-feira, 5 de março de 2014

Hoje é dia de cinzas

Após passar o ano inteiro se preparando psicologicamente para vivenciar da forma mais intensa possível, o fenômeno que é o feriadão de carnaval, muitos estão de volta para casa, tristes, saudosos, melancólicos, sonhando com o próximo.

Os únicos cinco dias, em 365, onde tudo é permitido: beber, dançar, beijar, transar, trair se drogar, enfim, um feedback aos tempos de Sodoma e Gomorra, sem peso na consciência. “-Estou na putaria, não num retiro!” E logo no Brasil, o país do futebol e do samba? Ficar em casa descansando, curtindo a família é fazer papel de trouxa. Conheço pessoas que vendem até a própria alma para não deixar de brincar o carnaval.  São cinco dias de pura fantasia, alegria. É maravilhoso voar sem tirar os pés do chão.

É tapa na bundinha, lepo-lepo, lapada na rachada, rapariga e cabaré, rebolation, entre tantos outros termos, que soam como um grito de guerra entre os felizes foliões, que são verdadeiras Alices no país das maravilhas. Wonderful Land! Oh, yeah! Porém, enquanto rola a folia, o tempo não para, o mundo não deixa de girar. Guerras acontecem, assaltos, assassinatos, corrupção. Isso não é fantasia. É a verdadeira face da vida real. Mas o que importa? As pessoas estão sedadas, alienadas, fora do campo da realidade. Durante cinco dias, o mundo não existe. Será uma espécie de Matrix? Todos ficam ricos, poderosos, bonitos, potentes, indestrutíveis.

Entretanto, trago agora uma triste notícia: Acabou a ilusão da folia. Bem-vindo ao mundo real. Welcome to the jungle! Volte de onde você estava por aquela estrada repleta de carros e buzinas enlouquecedoras.  Hum... Bateu a vontade de chegar logo em casa? Será que sua mobília ainda está por lá? Um mistério a ser desvendado.

Amanhã, você abrirá o jornal e verá as estatísticas da violência e ficará indignado, pois está fora do Matrix das ilusões e sonhos perdidos. Tomará seu café-da-manhã, apertará o nó da gravata, vestirá o terno bem passado, ligará o seu carro, deixará seus filhos na escola e enfrentará uma hora de engarrafamento até chegar ao trabalho. Estressante, não? E olhe que ainda são sete da manhã.

E durante a sua longa viagem ao escritório as lembranças dos últimos cinco dias virão à tona. Tudo lindo e colorido, contrastando aos tons cinzentos da melancolia, dos prédios e do céu da cidade poluída.

Particularmente, prefiro pensar no cinza, da forma mais absolutamente metafórica, pois, mesmo nos momentos mais tristes, nos remete à vida, em seus mais diferenciados contextos...



Daniel Silvio

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Uma morte anunciada...

Mais um Campeonato terminou para o Ferroviário, só que dessa vez foi bem diferente. “Estamos livres da segundona?” – perguntam alguns desinformados.

Não. Dessa vez, o time da Barra do Ceará caiu no inferno da Segunda Divisão do Futebol Cearense. Uma queda já prevista, levando-se em consideração os feitos do clube nos últimos anos. Sempre batendo na trave. Mas hoje, o gol foi contra.

Quem diria...

Uma morte anunciada. Nada disso foi novidade; não se descobriu o fogo ou se inventou a roda. O Clube, considerado até pouco tempo como a terceira força, o segundo time do torcedor cearense, que revelou craques para o futebol nacional, vivendo esse inferno astral. Existe explicação para isso? Pode ser.

Dirigentes sem alma, jogadores sem raça, sem técnica e, para completar, uma torcida diminuta, embora fiel e crente até o apito final. Mas, quando as cortinas se fecham, os refletores se apagam, a solidão dos túneis e a tristeza dos bastidores trazem à tona a triste realidade, quase que inacreditável: a queda.

O que e como será o amanhã quando os torcedores se derem conta desse terrível pesadelo? Uma segunda-feira incomum na vida dessas pessoas, que ficarão à espera de mudanças, de renovação e, sobretudo, soluções para problemas tão antigos e, ao mesmo tempo, latentes, como a dor de tão trágica derrota.

Não que sirva de consolo, mas outros clubes passaram pela mesma situação e deram a volta por cima. Cabe agora aos gestores, esquecerem a política, o jogo de interesses pessoais, a vaidade, e pensarem coletivamente, priorizando a instituição quase secular que é o Ferroviário Atlético Clube.

Mas enquanto esse dia não chega, trazendo novas perspectivas, os torcedores corais – honrados e fiéis até a morte – tentarão suportar esse domingo fatídico e preparar suas almas para acordar, literalmente, na segunda.

Daniel Silvio

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Preocupações




Os indivíduos de hoje gastam praticamente metade do seu dia pensando ou se preocupando com futilidades. O mercado financeiro em crise, natureza em fúria, corrupção crescente, violência desenfreada, analfabetismo, fome, caos no trânsito, não preocupam a cabeça de um autêntico brasileiro mais do que o próximo capítulo da novela das 21h, o novo (velho) reality show ou o jogo da seleção das firulas.

Milhões sentados à frente do seu quadrado mágico (agora em versão LED) vivem num mundo onírico, ilusório, sem perspectivas de lutar pelo futuro, pela educação (que por sinal, está em queda livre), com uma vibração desmedida que ecoa quase que uníssona em todas as casas e ruas:

- GOOOOOOOLLLLLLLL! – grita o país.

Pura alienação em massa. Atalho fácil, capaz de desviar os olhos do verdadeiro foco da análise crítica sobre os acontecimentos verdadeiramente relevantes, que, de alguma forma terão reflexo na vida de cada um.  Isso é uma grande vantagem para os poderosos de nosso país. “Povo ignorante, voto constante”.

Fato: Enquanto os idiotas estavam preocupados com suas eventuais futilidades, os “nobres” Deputados discutiram e aprovaram o projeto que aumentava em 62% seus próprios salários. Isso tudo num período de 24h. Enquanto um projeto que traz benefícios à nação leva anos para ser discutido. Mas quem se preocupa com isso? Bobagem!

Num domingo qualquer, as seleções de Voleibol (masculino), Futebol (masculino e feminino), os pilotos de Fórmula 1, além do atletismo, foram aquém do esperado e decepcionaram. Suas atuações pífias causaram frisson entre os alienados de plantão:
- Meu time perdeu! Acabou meu final de semana!

Que ridículo! Para mim tanto faz. Não sou hipócrita para afirmar que o importante é competir, pois, como diria nosso saudoso Ayrton Senna: “O segundo é o primeiro colocado entre os perdedores”. Desejo sempre a vitória, mas dentro de um contexto racional, sem deixar de me preocupar primeiramente com o que é mais importante.

Segunda-feira. Logo de manhã, em letras garrafais, estampada na primeira página dos jornais a seguinte notícia: “O DIA DE ONTEM NÃO FOI FAVORÁVEL AO BRASIL NOS ESPORTES”. Um pouco mais abaixo, sem grande destaque, a foto de uma rua esburacada. Não tem jeito. Caminhamos sobre uma ladeira que sempre termina num desfiladeiro.
Bola pra frente. A vida em si já é um esporte de risco para nós, simples mortais.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Percepções



O inevitável passar do tempo. É contra ele que lutamos desde o início de nossas vidas. É uma luta que nunca venceremos, mesmo sendo descobertas diariamente novas curas, tratamentos de beleza e rejuvenescimento. Os homens por mais inteligentes que sejam, nunca serão capazes de criar o elixir da eternidade. Contudo, resta ainda a força para lutar e prolongar nossa existência ao máximo, até que um dia alguém bata à nossa porta e faça um convite para o último brinde, o último encontro, a última viagem de nossas vidas. Antes de mim, também passaram milhões de gerações que hoje são esquecidas nos porões do tempo. Sorrisos, momentos de sofrimento, dores e realizações. Tudo é igual. As histórias da vida real são sempre as mesmas, mudando apenas lugares e personagens, desde as épocas mais remotas. A angústia humana pela espera da morte sempre existiu; talvez pela incerteza do depois.

Acabou o turno. Apagaram-se as luzes. Terminou o show. Passou a minha geração e agora uma juventude chega sem rebeldia convicta, sem causas para defender, sem objetivos, sem personalidade suficiente para discernir o que é útil para saciar suas mentes sedentas de conhecimento. Apenas uma atitude generalizada de vandalismo e aventura sem limites acompanha os recém-chegados como uma avalanche que desce a montanha, arrastando as pedras que insistem em permanecer no caminho. Tudo será soterrado e nascerá um novo cenário removedor de ciclos que repentinamente desaparecerão. Assim são as novas gerações e isso muito me preocupa, pois dois lados de uma mesma moeda se encontrarão: a prudente cultura do passado e a incerta aposta no futuro. Qual das duas prevalecerá? Do jeito que as coisas caminham não vejo nada promissor pela frente. Apenas um futuro que impõe moda, faz caras e bocas com a autoridade de quem sabe tudo sobre a vida, a atropelar toda uma história que levou séculos para ser construída. Castelos de areia na beira do mar...

Quanto a nós da geração passada, resta-nos viver um dia de cada vez, sem esperar por grandes acontecimentos em longo prazo. Daqui por diante, as coisas não serão mais como antigamente. Tudo perderá o seu brilho e encanto à frente de nossas almas jovens, com corpos desgastados pelo tempo. Então, fiquemos com as lembranças e nos conformemos com esse terrível recomeço, coexistindo até o fim, subjugados ao fatídico cotidiano...