Observo
que sempre o primeiro a sair é o rapaz da casa de número dezessete. Ele abre o
portão, põe a sua moto na calçada, volta, fecha o portão e vai mais uma vez ao
encontro de seu destino diário. Pouco depois, sai o homem de bigode que mora na
casa azul (falo assim porque realmente é a única casa dessa cor em toda a rua), sempre abotoando os botões da sua farda de motorista de ônibus. Anda tão apressado, que dá a impressão de estar sempre atrasado. Em seguida, o operário da rede de
esgotos abre a porta de sua casa, sai na calçada, entra novamente, volta com
uma xícara de café, acende um cigarro e permanece ali por uns dois minutos.
Depois tranca a porta, vira-se e segue vagarosamente o seu caminho, como se carregasse
um fardo sobre os ombros.
Como
eu disse, isso acontece diariamente e ,essas pessoas, embora saiam em horários
distintos pela manhã, chegam em suas casas à noite, sempre ao mesmo tempo. Outro
fato que me deixa curioso é como essas três pessoas, embora sejam vizinhas há
anos, não se falam, não se conhecem e tampouco têm o mínimo vínculo de amizade.
Só se veem acidentalmente nos finais de semana ou na volta do trabalho. Observo
tudo isso da minha janela. As coisas da vida são realmente tão curiosas, a
ponto de se tornarem engraçadas, porque existem casos de verdadeiras amizades
entre pessoas que moram muito distantes umas das outras e aqueles três vizinhos
mal se olham. Todos nós sabemos que o destino é irônico e gosta de fazer
surpresas, principalmente se forem ingratas.
Estava
eu na janela. Era início de noite e as coisas aconteciam como nos dias anteriores,
mas percebi algo diferente: os três homens ainda não haviam chegado.
Finalmente, algo de novo aconteceu, após tantos anos repetidos. Senti-me feliz
com a tal mudança de rotina, embora insignificante, tanto que resolvi abrir uma
cerveja para comemorar.
Liguei
a televisão, pois já havia começado o telejornal. Foi aí que descobri como a
vida une destinos e como esses foram colocados, propositadamente, numa mesma
história, só que da forma mais trágica que se possa imaginar: “Boa noite. Um motociclista em alta
velocidade atropelou um operário da rede de esgotos ao tentar desviar de um
buraco, saiu rolando pela pista e foi esmagado por um ônibus no cruzamento das
avenidas...”

