“Entra
ano e sai ano; sempre os mesmos planos”. É o que diz a canção de uma famosa
banda de Rock. Analisando bem essa frase, vê-se que a arte, neste caso a
música, traduz fidedignamente diversos aspectos do atual contexto sociopolítico
do Brasil.
Num telejornal desses que passam ao meio-dia foi mostrado mais um
(entre milhões já ocorridos) caso de inundação, numa cidade por enquanto sem
nome, pelo fato de o mesmo não ter sido por mim ouvido; afinal, é só mais uma dentro
das estatísticas.
O
que se pode perceber é que as pessoas fazem questão de ser apolíticas, de continuar
a sorrir frente às agruras da vida (popularmente falando, mazelas), sem se
importar com o futuro, comportando-se como animais, que aproveitam sempre o
momento presente. O País estático aguarda a definição nas urnas, do que serão
os próximos quatro anos. Discursos eletrizantes são feitos entre aplausos
desolados, de quem nunca se cansa de esperar por um milagre, já que do céu só
caem chuvas, raios, meteoros, satélites e aviões. As mesmas caras-de-pau,
renovadas por foto shop, estampam cartazes e bandeiras, dando a impressão de
que as velhas promessas serão, de fato, cumpridas.
Infelizmente,
a maioria se esquece de que nos últimos três anos faltaram remédios nos postos
de saúde, leitos nos hospitais, policiamento suficiente nas ruas, vagas nas
escolas e creches, saneamento básico e, sobretudo, moradia digna àqueles cidadãos
supracitados, que brigam com São José ou São Pedro (aí quem decide é a igreja),
para que seus barracos e filhos não sejam carregados pelas enxurradas durante a
noite, sentindo-se egoístas por pedir menos água para os pobres sertanejos, que
tiram o seu sustento daquilo que plantam e colhem. Já os sertanejos, além da
comiseração divina, também aguardam que a água, tão prometida há alguns anos,
chegue por meio de açudes e redes de abastecimento.
Enquanto
supostos adversários seguem a política do “entre tapas e beijos”, o povo
caminha “contra o vento; sem lenço e sem documento”, o tempo segue “devagar;
devagarinho” e tudo continua sempre igual. “Entra ano e sai ano; sempre os
mesmos planos”. E assim, no meio dessa eterna dicotomia, vida e arte caminham
“de braços e abraços, num romance astral”.
O
que seria do mundo se não existissem as canções...
Daniel Silvio

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