domingo, 31 de agosto de 2014

Destinos




       Amanheceu. Às cinco e meia da manhã começam (como se fosse algo combinado) a tocar numa perfeita sincronia, todos os despertadores da vizinhança. Logo que levanto, abro a janela do meu quarto para sentir no rosto os primeiros raios do sol e fico a observar o movimento ainda pequeno da rua quase que vazia, por pelo menos uns quinze minutos. É incrível a repetição dos fatos, mas esse é um fenômeno difícil de ser observado por todos, porque a mecanização tornou-se um importante elemento, um marco, um divisor de águas na era contemporânea, transformando as coisas em algo que as gramáticas dão o nome de rotina.

  Observo que sempre o primeiro a sair é o rapaz da casa de número dezessete. Ele abre o portão, põe a sua moto na calçada, volta, fecha o portão e vai mais uma vez ao encontro de seu destino diário. Pouco depois, sai o homem de bigode que mora na casa azul (falo assim porque realmente é a única casa dessa cor em toda a rua), sempre abotoando os botões da sua farda de motorista de ônibus. Anda tão apressado, que dá a impressão de estar sempre atrasado. Em seguida, o operário da rede de esgotos abre a porta de sua casa, sai na calçada, entra novamente, volta com uma xícara de café, acende um cigarro e permanece ali por uns dois minutos. Depois tranca a porta, vira-se e segue vagarosamente o seu caminho, como se carregasse um fardo sobre os ombros.

Como eu disse, isso acontece diariamente e ,essas pessoas, embora saiam em horários distintos pela manhã, chegam em suas casas à noite, sempre ao mesmo tempo. Outro fato que me deixa curioso é como essas três pessoas, embora sejam vizinhas há anos, não se falam, não se conhecem e tampouco têm o mínimo vínculo de amizade. Só se veem acidentalmente nos finais de semana ou na volta do trabalho. Observo tudo isso da minha janela. As coisas da vida são realmente tão curiosas, a ponto de se tornarem engraçadas, porque existem casos de verdadeiras amizades entre pessoas que moram muito distantes umas das outras e aqueles três vizinhos mal se olham. Todos nós sabemos que o destino é irônico e gosta de fazer surpresas, principalmente se forem ingratas.

Estava eu na janela. Era início de noite e as coisas aconteciam como nos dias anteriores, mas percebi algo diferente: os três homens ainda não haviam chegado. Finalmente, algo de novo aconteceu, após tantos anos repetidos. Senti-me feliz com a tal mudança de rotina, embora insignificante, tanto que resolvi abrir uma cerveja para comemorar.

Liguei a televisão, pois já havia começado o telejornal. Foi aí que descobri como a vida une destinos e como esses foram colocados, propositadamente, numa mesma história, só que da forma mais trágica que se possa imaginar: “Boa noite. Um motociclista em alta velocidade atropelou um operário da rede de esgotos ao tentar desviar de um buraco, saiu rolando pela pista e foi esmagado por um ônibus no cruzamento das avenidas...”



domingo, 10 de agosto de 2014

Homenagem ao meu pai, Raimundo Barboza Pinheiro





Olá pai, bom dia! Que bom estar aqui, para te felicitar por essa data que é comemorada apenas uma vez por ano, embora na minha concepção, o dia dos pais seja todo dia que se segue. As pessoas é que o veem como mero marketing, ao invés de instrumento de reflexões sobre os aspectos da vida. Esse é um dia para passeios, conversas, confraternizações, pois, afinal de contas, ter um pai é motivo para sorrir e agradecer aos céus.

Pai, você sempre foi presente na minha vida, não posso me queixar do contrário. Lembro-me com detalhes dos presentes, carinhos e momentos de prazer que vivenciei ao seu lado. Também não me esqueço dos “corretivos” que me deixavam com raiva, mas hoje compreendo que tudo o que você fez, foi pensando no meu bem. Você queria que eu aprendesse com os meus erros e me tornasse um homem, uma pessoa de caráter, que amasse ao próximo e buscasse o caminho do bem, assim como você. Obrigado por isso. Acho que você conseguiu esse objetivo.

Depois da separação entre você e mamãe, fiquei contigo, afinal, como filho mais velho, era seu companheiro de todas as horas. Lembra da nossa última viagem juntos? Pois eu me recordo de tudo com detalhes: estranhei o frio, a simplicidade que me causou desconforto e os mosquitos. Mas sentimentos existem também para serem modificados e a hospitalidade, juntamente com o carinho daquelas pessoas, fez com que elas passassem a ser, num curto espaço de tempo, amigas, ao invés de estranhas. Foi um mês de férias tão maravilhoso que eu nem queria mais voltar para a nossa casa na cidade. 

Depois disso, as coisas entre nós ficaram diferentes. Eu cresci e os meus planos mudaram de rumo. Mas é isso aí pai. Tudo caminha para um mesmo curso e o que temos a fazer? Aceitar com naturalidade, nem que para isso tenhamos que suportar os piores sofrimentos da alma.

A vida nos deixa marcas e as que trago no coração são muitas, principalmente aquelas que ficam atravessadas na alma. O que quero dizer pai, é que deixei para depois um carinho que queria te fazer, um abraço que queria te dar, palavras que eu tinha para falar e como eram belas... 

Tantas coisas que ainda teríamos de descobrir sobre o outro. Inúmeras atitudes que eu não sei, se por medo ou vergonha, deixei pra lá. Mas hoje estou aqui te homenageando e dizendo o que não tive coragem há anos atrás. Espero que não seja tarde demais, afinal, ainda estou vivo e penso em você todos os dias.

Sei que ando ocupado ultimamente, por isso venho pouco aqui e...

- Dezenove horas! Acabou o horário de visitas!

- É pai, tenho que ir. O cemitério está prestes a fechar. Até o ano que vem. Prometo que virei mais cedo e trarei flores. Descanse em paz.

sábado, 10 de maio de 2014

Mãe.


Escolhida por Deus para ser o elo entre nós e a vida, é a forma mais perfeita que uma mulher pode ter. Tem a beleza e singeleza de uma flor, além da força para enfrentar o mundo. Uma palavra de apenas três letras, ímpar expressão do amor em forma de gente. É tema de poemas e canções.

Encanta as entranhas dos esplendorosos jardins com suas pétalas-perfume, numa essência única. Reverencia a vida em cada amanhecer e é reverenciada pelo sol. Emana o perfume do amor, reflete nos corações a grandiosidade do mar. Alma que transcende os infinitos limites do ser.

É mãe, mas também esposa e filha, companheira, avó e amiga sempre recitada e respeitada em cada coração, em cada alma e memória de cada filho feliz por sua presença, eternos aprendizes de suas lições que são por demais importantes.

Doce mulher, de pétalas macias, forte, de rijos espinhos, que cuida e defende com garra seus amados filhos, que, por mais que cresçam, nunca deixam de ser crianças. Mulher singular na arte de fazer jus ao seu nome, que é doce, que é forte, porque és simplesmente...


Mãe.

sábado, 12 de abril de 2014

Feliz Aniversario!



“Eu não tenho data pra comemorar”. Assim disse o poeta numa de suas marcantes canções. Realmente, ele tem razão. Como se comemora uma data sem ter grandes perspectivas? Vejo isso nos olhos das pessoas ao meu redor. Tristeza, a falta de esperança e arrependimento por acreditarem piamente nas pessoas erradas.

 Falando em comemoração, Fortaleza amanheceu um pouco mais velha, afinal, completou 288 anos de existência. Os mais bairristas dizem que são anos muito bem vividos, de mãos dadas com o futuro, entre outros milhões de elogios. Mas sabemos que a realidade é outra. Escolas depredadas, ruas esburacadas, as intermináveis obras inacabáveis, trânsito caótico, violência, nem se fala (agora somos a sétima cidade mais violenta do mundo)! Que luxo! Não posso me esquecer de citar as pessoas mal educadas, que jogam o lixo nas ruas nos dias em que não têm coleta. Pelo menos nisso dou razão à Prefeitura.

De uns tempos pra cá passei a procurar qualidades na cidade onde nasci, mas ainda não tenho grandes coisas a dizer. Entendo que esse é um fenômeno peculiar das grandes metrópoles. É o “preço do progresso”, mas, ao contrário do que diz o lema da Bandeira Nacional, é desordenado.

Existem hoje duas Fortalezas. A dos turistas, da rede hoteleira (que também não é lá grande coisa), das praias lotadas, das ruas asfaltadas e minimamente arborizadas, dos shoppings, das mansões e aquela outra tão conhecida pela maioria das pessoas, com seus buracos, favelas, turismo sexual, lixo, falta de cultura e violência generalizada, que em algumas míseras datas é homenageada com festas a céu aberto para adoçar a língua do povo. “Nóis é pobre mais se diverte”.

Agora estamos numa época relativamente próxima da Copa do Mundo e das eleições para Presidente. Hoje mesmo assisti a diversas propagandas (enganosas, diga-se de passagem) que mostravam pessoas felizes nas filas quilométricas de um terminal de ônibus, crianças que brincavam numa praça revitalizada, um professor sorridente e satisfeito, postos de saúde com atendimento eficiente, entre outras perfeições que fazem parte dos devaneios daqueles mais crédulos.

Num telejornal ao meio-dia, um representante municipal disse que a Prefeitura trabalha incansável para cumprir as metas e as promessas feitas em campanha. Mas, trabalhoso mesmo, é viver a eterna espera no meio do caos. Contudo, existe o lado bom da coisa. Reconheçamos que Fortaleza agora é uma cidade internacional; afinal, tem a Ponte dos Ingleses, o Jardim Japonês e, sobretudo, no período chuvoso, as Ruas de Veneza. Feliz Aniversário.



Daniel Silvio


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Vida e Canções


“Entra ano e sai ano; sempre os mesmos planos”. É o que diz a canção de uma famosa banda de Rock. Analisando bem essa frase, vê-se que a arte, neste caso a música, traduz fidedignamente diversos aspectos do atual contexto sociopolítico do Brasil. 

Num telejornal desses que passam ao meio-dia foi mostrado mais um (entre milhões já ocorridos) caso de inundação, numa cidade por enquanto sem nome, pelo fato de o mesmo não ter sido por mim ouvido; afinal, é só mais uma dentro das estatísticas.

O que se pode perceber é que as pessoas fazem questão de ser apolíticas, de continuar a sorrir frente às agruras da vida (popularmente falando, mazelas), sem se importar com o futuro, comportando-se como animais, que aproveitam sempre o momento presente. O País estático aguarda a definição nas urnas, do que serão os próximos quatro anos. Discursos eletrizantes são feitos entre aplausos desolados, de quem nunca se cansa de esperar por um milagre, já que do céu só caem chuvas, raios, meteoros, satélites e aviões. As mesmas caras-de-pau, renovadas por foto shop, estampam cartazes e bandeiras, dando a impressão de que as velhas promessas serão, de fato, cumpridas. 

Infelizmente, a maioria se esquece de que nos últimos três anos faltaram remédios nos postos de saúde, leitos nos hospitais, policiamento suficiente nas ruas, vagas nas escolas e creches, saneamento básico e, sobretudo, moradia digna àqueles cidadãos supracitados, que brigam com São José ou São Pedro (aí quem decide é a igreja), para que seus barracos e filhos não sejam carregados pelas enxurradas durante a noite, sentindo-se egoístas por pedir menos água para os pobres sertanejos, que tiram o seu sustento daquilo que plantam e colhem. Já os sertanejos, além da comiseração divina, também aguardam que a água, tão prometida há alguns anos, chegue por meio de açudes e redes de abastecimento.

Enquanto supostos adversários seguem a política do “entre tapas e beijos”, o povo caminha “contra o vento; sem lenço e sem documento”, o tempo segue “devagar; devagarinho” e tudo continua sempre igual. “Entra ano e sai ano; sempre os mesmos planos”. E assim, no meio dessa eterna dicotomia, vida e arte caminham “de braços e abraços, num romance astral”.

O que seria do mundo se não existissem as canções... 


Daniel Silvio

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pequeno ensaio sobre a educação brasileira



A que ponto chegou a nossa educação. Em busca de ascensão no cenário socioeconômico mundial, o governo brasileiro prioriza o aumento dos índices nas estatísticas. Sabemos todos que os números não mentem, mas, infelizmente, as pessoas sim. Números são apenas números. A mídia divulga os resultados como uma grande conquista, isto é, não faz nada além de dizer o que os governantes e cidadãos gostam de ouvir após mais um estressante dia de trabalho. "Graças a Deus, pelo menos uma boa notícia". O fato de alunos não serem reprovados em nossas escolas denota num crescimento imaginário e como resultante, saídos das escolas públicas, profissionais extremamente capacitados para limpar vidros de carros, recolher lixo, além dos mais destemidos e empreendedores que, com enorme visão para negócios, tornam-se traficantes de drogas.

            Mas não podemos abordar esse tema de forma generalizada. Ressalto aqui, que faço referências à maioria e que também sou conhecedor do lado positivo dessa história. Infelizmente, quando saem os números do "crescimento na educação", não é levado em conta apenas o que funcionou de verdade, quantos alunos aprenderam de fato. A imprensa mostra e o povo sorri, mesmo depois de um insólito aumento do salário mínimo, que, segundo economistas do governo é oneroso. Segundo uma pesquisa, para cada real inserido no salário são 135 milhões a menos nos cofres públicos. Só uma curiosidade: Por que a alta cúpula pesquisa sobre quanto custa ao povo o aumento de míseros 62% nos próprios salários? Perdão. Isso é outra história, para outro artigo.

Viva o carnaval! Viva o coelhinho da Páscoa! Viva Tiradentes! Viva o Papai Noel! Viva o sistema da não reprovação!  Do jeito que as coisas estão, num futuro bem próximo, os estudantes não saberão mais nem resolver um simples problema que a vida lhes oferece diariamente: escrever seu próprio nome. 

Que venha a Copa do Mundo!

Daniel Silvio

sexta-feira, 7 de março de 2014

Para todas as mulheres



Hoje é um dia para ser comemorado com a maior das alegrias. Não, não é pelo sábado, e sim, por uma data mais que importante, onde as flores se abrem com um olor especial, embora essa homenagem deva ser feita todos os dias. 8 de março não lembra nada para você? Claro que sim! Hoje é o Dia Internacional da Mulher.

Da mulher guerreira que enfrenta bravamente as dificuldades do dia-a-dia e consegue ao mesmo tempo ser delicada e companheira. Mulher que amamenta, acalenta e tem garras de leoa ao defender seus filhos. Que chora não pelas dores físicas, mas pela alegria da superação.

A melhor amiga, mãe, parceira, que pela força do afeto dobra os homens mais duros. Estamos nós, indivíduos “fortes” do sexo masculino, rendidos aos seus cuidados , mas, ainda assim, insistimos em ficar no posto de comando, apenas por acreditarmos na tradicional máxima que diz “Quem manda é o homem”. Ideologia barata, filosofia de fundo de quintal, no máximo, de bar.

Após um dia de trabalho duro precisamos de carinhos, carícias, comidinha quente e cama aconchegante para que possamos dormir tranquilamente e enfrentar tudo de novo ao acordar. Consolo e serenidade nos momentos de dificuldade que recebemos de graça...

Só a mulher nos proporciona isso e ainda nos sentimos o máximo. Pobres de nós. Com tanto vigor, coragem e astúcia, ainda somos fracos, inseguros e menos inteligentes, sem contar que não fomos escolhidos pelo Criador para cumprir a sublime missão de dar a luz. Será que somos de fato o lado mais forte sabendo que não temos capacidade de viver ao mesmo tempo vários papéis?

Imagino como é difícil ser mãe, esposa, funcionária, dona-de-casa, babá, cozinheira, lavadeira, engomadeira e a base forte de uma família. Isso é o que chamo de solidez, força espiritual extrema, que só a mulher possui.

Aos machões de plantão, esse não é um discurso feminista, apenas uma pequena homenagem às Roselenas, Helenas, Rosas, Joselinas, Danielles, Renatas, Rutes, Socorros, Zeunálias, Cláudias, Aurineides, Andréas, Isabelas, Silvias, Lúcias, Fernandas, Vivianes, Geises, Anas, Sabrinas, Carolinas, Rosanes, Kamillas, Moniques,Pompeias, Goretes, Naras, Tarcisias, Jaciras,Déboas, Suzys, Mirelas, Cristianes,Geuzas, Huianas, Solanges, Paulas, Taianes, Níveas, Marluces,Virnas, Karlas e Hellens, enfim, entre outros milhões de nomes, que à frente da grandeza do papel que têm no mundo são apenas nomes, porém, dignos da mais expressiva e sincera reverência. Mulher, parabéns por esse dia, que deve ser comemorado todos os dias...


Daniel Silvio