domingo, 9 de fevereiro de 2014

Percepções



O inevitável passar do tempo. É contra ele que lutamos desde o início de nossas vidas. É uma luta que nunca venceremos, mesmo sendo descobertas diariamente novas curas, tratamentos de beleza e rejuvenescimento. Os homens por mais inteligentes que sejam, nunca serão capazes de criar o elixir da eternidade. Contudo, resta ainda a força para lutar e prolongar nossa existência ao máximo, até que um dia alguém bata à nossa porta e faça um convite para o último brinde, o último encontro, a última viagem de nossas vidas. Antes de mim, também passaram milhões de gerações que hoje são esquecidas nos porões do tempo. Sorrisos, momentos de sofrimento, dores e realizações. Tudo é igual. As histórias da vida real são sempre as mesmas, mudando apenas lugares e personagens, desde as épocas mais remotas. A angústia humana pela espera da morte sempre existiu; talvez pela incerteza do depois.

Acabou o turno. Apagaram-se as luzes. Terminou o show. Passou a minha geração e agora uma juventude chega sem rebeldia convicta, sem causas para defender, sem objetivos, sem personalidade suficiente para discernir o que é útil para saciar suas mentes sedentas de conhecimento. Apenas uma atitude generalizada de vandalismo e aventura sem limites acompanha os recém-chegados como uma avalanche que desce a montanha, arrastando as pedras que insistem em permanecer no caminho. Tudo será soterrado e nascerá um novo cenário removedor de ciclos que repentinamente desaparecerão. Assim são as novas gerações e isso muito me preocupa, pois dois lados de uma mesma moeda se encontrarão: a prudente cultura do passado e a incerta aposta no futuro. Qual das duas prevalecerá? Do jeito que as coisas caminham não vejo nada promissor pela frente. Apenas um futuro que impõe moda, faz caras e bocas com a autoridade de quem sabe tudo sobre a vida, a atropelar toda uma história que levou séculos para ser construída. Castelos de areia na beira do mar...

Quanto a nós da geração passada, resta-nos viver um dia de cada vez, sem esperar por grandes acontecimentos em longo prazo. Daqui por diante, as coisas não serão mais como antigamente. Tudo perderá o seu brilho e encanto à frente de nossas almas jovens, com corpos desgastados pelo tempo. Então, fiquemos com as lembranças e nos conformemos com esse terrível recomeço, coexistindo até o fim, subjugados ao fatídico cotidiano...



2 comentários:

  1. Parabéns pela crônica, embora num tom meio tristinho é tônica e refrescante, pelo menos para mim, Olivier, francês aqui no Brasil há quase 20 anos, casado com uma brasileira e pai de um filho brasileiro de dez anos desde terça-feira de cinza agora.
    Abraço!

    ResponderExcluir
  2. E pai preocupado com o futuro do filho é claro!

    ResponderExcluir